REFLEXÕES DE UMA ADVOGADA RECÉM-FORMADA

Não foram cinco anos comuns. Foram cinco anos de muito estudo, disciplina, cansaço e expectativa. No início da faculdade ouvi um professor dizer: “passa muito rápido, acredite!”. Não era o que parecia no primeiro dia de aula, mas foi o inevitável.

Nos primeiros períodos surgiu a ansiedade de aprender as matérias mais práticas de uma vez. Desejo de “pular” as matérias teóricas de filosofia e sociologia do direito (mal sabia eu da fundamental importância de tais conteúdos para a formação de um advogado ético e preparado). Depois vieram os períodos de estágio com muito aprendizado e entusiasmo de que, em breve, estaria exercendo efetivamente a advocacia com autonomia e sucesso.

Tão logo pensei, já estava na hora de apresentar a tão complexa monografia e prestar o tão temido exame da Ordem. Felizmente, passei por ambas as fases com tranquilidade e êxito (claro que com certo temor da reprovação). E então, vi-me a um passo da formatura. Expectativa, sonhos, gratidão e nostalgia marcaram o momento.

Pronto! Fim de fase. Início de uma nova etapa e o começo do enfrentamento da realidade.

De fato, a vida nos ensina a sermos realistas e a compreender que nem tudo acontece da maneira que esperamos, mas torna-se quase inevitável ao jovem advogado não pensar que a carreira profissional fluirá com certa facilidade logo após a colação de grau. Inocência ou imaturidade? Talvez.

Mas prefiro pensar que tal expectativa ilusória decorre do grande esforço despendido ao longo da faculdade movido pela esperança de ser um profissional de sucesso, ativo, destemido e coerente com os bons valores aprendidos nas fundamentais aulas de ética.

Porém, a realidade é dura. Exige força e coragem. Muito depende da oportunidade, do networking e, claro, dos recursos financeiros.

Não são todos que possuem condições de iniciar o exercício da advocacia com o próprio escritório e esperar o demorado retorno. Torna-se fundamental aprender a lidar com diversas situações: clientes que buscam sua consultoria jurídica e a recebem de maneira eficaz, mas preferem contratar um advogado “topa tudo”; ou ainda aqueles clientes que trazem um mundo de problemas incontornáveis juridicamente, mas que apelam para a “justiça”. Ah! Não podemos esquecer dos “nobres” colegas que utilizam de estratégias indevidas para captar clientes ou se sobressaírem profissionalmente e acabam conseguindo – pelo menos por enquanto (a vida distinguirá os honestos dos desonestos).

Mas tudo isso faz parte. Lidar com pessoas e com “injustiças” da vida nos faz indivíduos mais maduros, tolerantes e pacientes. E talvez não exista profissão tão norteada por tais desafios como a advocacia,todavia estes a fazem nobre e indispensável.
No entanto, o que fazer se não for possível aguardar o êxito da advocacia e ainda possuir compromissos particulares a serem honrados?

Nesse ponto nos vemos tentados a nos submeter a trabalhar para algum escritório, seja grande ou pequeno. Com raras exceções, nos deparamos com salários baixos e falta de autonomia. Exige-se pós-graduação, veículo próprio e dois idiomas e em troca oferece-se um pouco mais que um salário mínimo. Frustrante! Não devemos esquecer dos serviços pseudo-jurídicos (quase que administrativos!) para os quais os advogados são contratados. Mas em meio a falta de opções, aceita-se quase tudo. Não por ausência de conhecimento ou esforço, mas devido à ausência do QI (quem indica) ou do desespero financeiro. Sem falar no tão sonhado concurso: nem todos conseguem focar apenas nos estudos e não terem algum emprego fixo para se sustentarem. E aqueles que o possuem, não raras vezes se vêem impossibilitados de se dedicarem aos livros após um expediente cansativo.

Nesse contexto, vários recém-formados de potencial se perdem. Perdem a esperança na advocacia ou até mesmo o gosto pelo direito. Talvez possamos comparar com uma linha do tempo: antes e depois do choque de realidade. Ou você desiste e tenta sucesso em outra área ou busca forças para continuar lutando por aquele sonho de faculdade. Na minha opinião ambas as escolhas são dignas e devem ser respeitadas.

Para quem optar pela segunda, é preciso saber que a vida está em constante transformação e cabe a nós sermos ensináveis, maleáveis e insistentes (não teimosos). De fato, a advocacia enfrenta uma dura realidade, mas a existência de obstáculos não os torna intransponíveis. Talvez seja preciso resgatar aquela paixão e ânsia por mudar o mundo, tão presentes no primeiro dia de aula. Sempre haverá um novo passo a ser dado e a oportunidade de tentar. O tempo não é o mesmo para todos, mas a colheita é obrigatória. A questão se resume à qualidade da semente. Há quem colha sucesso mais rapidamente, mas somente os bons frutos permanecem.

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